Quarta, 11 Agosto 2021 16:15

Ponto de Cultura de Além Paraíba dá apoio a projeto de cinema

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Ponto de Cultura de Além Paraíba dá apoio a projeto de cinema

Bastidores do filme Mineiro Pau.

O repórter Thiago Filgueiras, do Jornal AGORA, entrevistou, na última semana, o jovem cineasta Rodolfo Silva, roteirista e diretor do curta-metragem “Mineiro Pau – a felicidade do encontro”, de produção da Di Minas Filmes, de Santo Antônio do Aventureiro. O mais recente filme de Rodolfo já está no ar desde o dia 1 de agosto no canal "Identidade Cultural TV", no YouTube.

Rodolfo é responsável pela idealização do pioneiro projeto “Cinema na Roça”, que vem sendo desenvolvido de forma brilhante, desde 2015, documentando em vídeo situações cotidianas de moradores de Aventureiro e comunidades rurais que se avizinham ao município.

Recentemente, o "Cinema na Roça" recebeu convite e aceitou uma parceria com o Ponto de Cultura "Associação de Capoeira Identidade Cultural" de Além Paraíba.

Para umelhor entendimento: os pontos de Cultura podem ser beneficiados por leis de incentivo à cultura, por estarem estabelecidos como PJ-Pessoa Jurídica. E, ao receberem o apoio financeiro da Lei Aldir Blanc durante a pandemia, no início deste ano 2021, firmaram o compromisso de promover a descentralização dos recursos,  através de Microprojetos. A ação consiste em pegar uma parte do valor que foi recebido e fazer chegar o benefício de apoio a diversas pessoas físicas com iniciativas culturais que, em função de entraves burocráticos, não conseguiram ter acesso aos recursos financeiros disponibilizados pela Lei.

Por meio de um edital, a Lei Aldir Blanc de incentivo à cultura concedeu bolsas de criação a agentes culturais, divididos nas categorias: Individual ou Coletivo. E o primeiro resultado publicado desses microprojetos em nível local foi o filme-documentário "Mineiro Pau - A Felicidade do Encontro", parceria já concretizada pelo Ponto de Cultura "Associação de Capoeira Identidade Cultural" com o "Cinema na Roça".

O curta-metragem, inspirado na batida diferente da canção "A felicidade do Encontro" (lembrando a dança do "mineiro-pau", bastante conhecida em nossa região),  interpretada pelo rapper Marezia 99,  já está disponível no canal "Identidade Cultural TV, no YouTube.

O cineasta Rodolfo Silva, roteirista e diretor do curta-metragem “Mineiro Pau – a felicidade do encontro”

CONFIRAM ABAIXO A ENTREVISTA COM O DIRETOR E ROTEIRISTA RODOLFO DA SILVA, MORADOR DO DISTRITO DE SÃO DOMINGOS, EM SANTO ANTÔNIO DO AVENTUREIRO:

JA: Como surgiu a iniciativa de criar, em Santo Antônio do Aventureiro, o projeto cultural “Cinema na Roça”?

R:Um dia estava assistindo ao filme "Tapete Vermelho" com Matheus Nachtergaele, um ator que sou muito fã. No filme, o personagem de Matheus promete para seu filho assistir a um filme do Mazzaropi no cinema, eles percorrem várias cidades do interior nordestino atrás de uma sala de cinema. Aquela história ficou matutando em minha cabeça até que telefonei pra minha mãe. Na época eu morava no Rio de Janeiro e minha mãe em Juiz de Fora e disse da ideia de fazer um evento em São Domingos, distrito de Santo Antônio do Aventureiro onde pudesse levar o Cinema pra comunidade, até então 90% da população nunca tinha tido a experiência de estar em uma "sala" de cinema.  A partir daí, levei a ideia pra faculdade e compartilhei com meus amigos. Pro projeto acontecer no ano de 2015 fui pra São Domingos com uma folha de papel impressa contendo informações sobre a ideia e bate de porta em porta e de comércio em comércio apresentando o Cinema na Roça e pedindo recursos, consegui arrecadar R$300,00. Com esse dinheiro paguei minha passagem e de mais dois amigos que viajaram comigo durante um final de semana e realizamos o filme "São Domingos, através da Porteira". Em um evento que durou o dia todo na Escola Municipal de São Domingos, além da exibição da nossa produção original, exibimos outros filmes populares, apresentações musicais e muita alegria e felicidade no rosto de quem estava presente. A segunda edição do evento aconteceu no município de Santo Antônio do Aventureiro, no ano de 2017, com uma ajuda maior da prefeitura municipal conseguimos realizar um trabalho grandioso. Não recebemos dinheiro e sim apoio com transporte e alimentação, minha mãe, Sebastiana Almeida, possui um papel importantíssimo no Cinema na Roça, com todo apoio dado. O evento da segunda edição durou 3 dias e aconteceu no Salão paroquial da Igreja Matriz de Aventureiro, sucesso absoluto de público. Tivemos banda de música, shows, apresentações artísticas, exibições de filmes, cineastas convidados e a presença ilustre da atriz Cássia Kis, finalizando com a exibição do nosso trabalho autoral, o filme documental "Aventureiro". O filme de "Aventureiro" se transformou em um clássico, lançado em novembro de 2017 o filme foi exibido em várias cidades, incluindo Além Paraíba no PopCine e em Juiz de Fora no Prédio da Funalfa. É difícil algum morador de Aventureiro não ter assistido a este filme, o auge é a exibição do longa metragem na televisão sendo transmitido desde 2019 na TV Senado, canal aberto para todo Brasil, elevando a cultura do nosso município.

JA: Como você encarou o convite para essa parceria com o Ponto de Cultura "Associação de Capoeira Identidade Cultural" e a importância desse apoio para os artistas e produtores culturais?

R: Quando a Paula do Ponto de Cultura entrou em contato comigo pelo Instagram eu fiquei muito feliz e honrado. A gente ama demais o Cinema na Roça e ser contratado pra fazer um trabalho que adoramos é algo prazeroso e gratificante.Me lembro quando era criança e assistia a dança do Mineiro Pau na escola e nas festinhas, mas nunca participei. Apesar de muito interessante sempre achei uma dança muito masculina.Todo trabalho de um artista existe aspectos da personalidade do criador, costumo dizer que meus personagens fictícios são pedaços de mim. O "Mineiro Pau - A Felicidade do Encontro" é um filme documental que expressa a vontade de preservar a cultura do interior do nosso Brasil.O processo de produção e criação do roteiro pro filme "Mineiro Pau - A Felicidade do Encontro" coincidiu  com um momento curioso em minha vida pessoal.A pandemia veio pra sacudir nossos psicológicos, estamos vivendo um momento de reflexão e autocrítica. Eu sou gay e minha relação com a masculinidade sempre foi muito complicada. Venho de uma cidade pequena e uma família extremamente conservadora. Tenho muito orgulho de fazer parte da minha família, mas minha infância assim como da maioria dos homens gays, não foi fácil.Eu era uma criança frágil, delicado, tímido e receoso por tudo a minha volta. Quando você é uma criança e é chamado de "viadinho" pelos coleguinhas (importante frisar que as crianças aprendem a serem preconceituosas com os adultos) a sua cabeça desmorona sem ter a menor idéia do que exatamente isso signifique, eu sabia que não era igual aos meninos e na minha mente eu era o errado e pensava que não deveria existir. No grupinho das meninas eu era aceito, mas minha família não permitia que eu andasse com elas com medo do que os outros pudessem pensar e isso me fez crescer solitário. "Vira homem", "anda igual homem", "se vista igual homem", "fale igual homem" todo homem gay já deve ter ouvido alguma dessas frases ao longo da vida. Mas o que é ser homem? Eu sou um homem gay, feliz com minhas escolhas e pronto pra viver minha vida!E é exatamente isso que mostramos no filme "Mineiro Pau - A Felicidade do Encontro" A forma como vejo e respeito a masculinidade. O filme é composto 99% de homens e a única mulher que aparece é uma grávida ao lado do marido que esperam juntos um menino. A mensagem que quero passar é que você pode ser um machão sem ser escroto! "Viado" significa "Pessoa Feliz”.

JA: Como foi produzir e realizar o curta-metragem em tempo de pandemia e isolamento social?

R:Foi interessante! Tomamos todos os cuidados que são necessários. A equipe do Cinema na Roça é muito incrível. Toda filmagem foi feita na cidade de Santo Antônio do Aventureiro, onde moro atualmente.Era uma sexta a noite quando chegaram da Influência, os artistas Marezia99 e CauTar. CauTar é o nome artístico do Carlos Augusto Bittencourt, meu grande amigo que está comigo desde o início do projeto lá em 2015, ele e sua adorável esposa, Isabela Olinda, que são responsáveis por toda nossa Identidade Visual, incluindo a criação da nossa logo. Na mesma sexta, pouco mais tarde, Luis Filipe chega de Juiz de Fora. Luis é nosso fotógrafo e editor, um profissional incrível com muita delicadeza e sensibilidade no olhar. CauTar precisou voltar pra casa pra cuidar de Flora Darc, sua primogênita a pedido de sua esposa, Isabela. O papel do homem é cuidar de seus filhos junto com sua esposa!Se juntou a nós o jovem, Fábio Martins morador de Aventureiro e Parrick Bittencourt,  também da Influência que chegou no sábado pela manhã.Nosso Cinema é cinema de guerrilha, não temos carro e nem dinheiro, durante dois dias, sábado e domingo, eu, Marezia 99, Fábio Martins, Luis Filipe e Patrick Bittencourt andamos a cidade de Aventureiro captando imagens e coletando entrevistas.Ganhamos patrocínio de almoço e lanche, em troca fizemos uma grande movimentação na Internet para divulgar e incentivar o comércio local.A pandemia está nos mostrando muita coisa. Estava desempregado, mas há 3 meses consegui um emprego em uma confecção de cuecas. Sem dúvida, a pós produção foi o momento mais interessante de todo o processo. Marezia 99 é rapper de um talento inigualável, o jovem artista compôs a canção original intitulada "A Felicidade do Encontro" que encerra o filme com imagens de homens de diversas idades em locais diferentes da cidade, valorizando a beleza que Santo Antônio do Aventureiro possui. Marezia 99, compôs, criou o beat e gravou a canção inteira pelo celular. Enquanto eu cortava cobertura e desvirava cuecas, com o celular escondido, ouvia pedaços da canção, opinava na letra e ao mesmo tempo que recebia as incríveis fotografias de bastidores feitas por Patrick Bittencourt e Fábio Martins. As vezes quando fazia o café na confecção para os funcionários e lavava o banheiro, ficava no celular, discutia qual seria a próxima arte a ser postada e palpitava na elaboração do cartaz do filme que ficou incrível, obra de CauTar e Isabela Olinda. Mas isso tudo é pra dizer que não é fácil, principalmente se você é pobre, tudo fica 10 vezes mais difícil. Mas precisamos acreditar no nosso talento e ter confiança em quem somos.Temos que lutar por aquilo que acreditamos!

JA: Qual a mensagem principal do curta “Mineiro Pau – A Felicidade do Encontro” diante do momento que estamos vivendo?

R: A cultura é importante em qualquer momento. Existe uma carência enorme do acesso à cultura nas cidades menores. Os governantes e autoridades locais precisam urgentemente investir em cultura, é necessário ver projetos e ações sendo feitos, a política precisa mudar e os jovens precisam entender seu lugar e se sentirem pertencentes e donos do espaço que ocupam. O Cinema na Roça é um projeto transformador, valorizando e incentivando a cultura local e oferecendo a oportunidade do acesso ao cinema. Ensinado, educado e elevando a imagem e a existência de toda uma comunidade. "Mineiro Pau - A Felicidade do Encontro" é pertencimento, é nosso! Este foi um trabalho magnífico feito por jovens artistas da nossa terra e precisa ser valorizado para continuar. Assistam ao nosso filme! Viva a cultura!!! Viva o Cinema nacional!!!

JA: Fale sobre a importância das Leis de Incentivo à Cultura, como a Lei Aldir Blanc, para os artistas neste período de pandemia.

R: Importantíssimo e necessário. O Cinema é extremamente seletivo, infelizmente ter uma oportunidade nessa área não é fácil. Eu tive a oportunidade de ouro de fazer estágio na maior produtora de cinema do país, a Conspiração Filmes, meu primeiro projeto foi estagiário de assistente de produção no filme das Olimpíadas em 2016 que aconteceu no Rio de Janeiro, uma experiência incrível, por lá fiquei durante dois anos. Mas eu sou diretor de cinema e lá nunca terei uma oportunidade de exercer essa profissão. Os artistas e profissionais do cinema, por exemplo, são os que mais sofreram com o impacto da pandemia. No ano passado eu trabalhava na prefeitura da minha cidade como produtor cultural, consegui realizar 3 exposições fotográficas, o "Festival de Verão" e durante a pandemia criei o projeto "Quarentena com Poesia" além de vídeo aulas com os professores da Escola Municipal, mas com a eleição municipal e a troca de partido perdi meu emprego. 2021 começou de uma forma bem complicada pra mim. Como um artista ganha dinheiro na Roça?  Eu morava com meus pais, sem um centavo e cheio de dívidas. As leis de incentivo à cultura são extremamente complicadas de participar, além de muita burocracia não é qualquer um que pode concorrer. Geralmente você precisa ter uma empresa, um CNPJ e dificilmente o MEI é aceito. Mas quem tem essas empresas? Os grandes, os produtores e cineastas com dinheiro. Os verdadeiros artistas independentes não têm muita chance.  A Lei Aldir Blanc veio como um respiro e uma virada interessante na cultura nacional, dando voz e oportunidade pra nós. O dinheiro é pouco, quase nada. Pra se fazer um filme é necessário muita coisa. Mas a visibilidade e chance de mostrar nosso trabalho é uma oportunidade que precisa ser aproveitada. É tipo essa entrevista, onde estou podendo dizer o que tenho vontade de falar. Está na hora de cineastas pobres, assim como eu, terem oportunidade de mostrarem pro mundo seus trabalhos.

JA: O público deve esperar novas parcerias entre o "Cinema na Roça" e o Ponto de Cultura "Associação de Capoeira "Identidade Cultura"? Há algum entendimento para projetos futuros?

R: Se depender de mim, claro! Foi um projeto muito gostoso de se fazer. O Ponto de Cultura é um trabalho lindo que ajuda na permanecia e garante a sobrevivência da capoeira em nossa região. Uma Cultural brasileira que resgata valores de nossos ancestrais elevando o poder do nosso povo!Até este momento não há entendimento de projetos futuros, mas estamos totalmente à disposição. Queremos também que as prefeituras das cidades vizinhas nos procurem e deixem o Cinema na Roça entrar!





Informações adicionais

  • Cidade:Além Paraíba - MG